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CONSTIPAÇÃO
Tratamento da Constipação Crônica do Geriatra.
Dr. Alex Miranda Ramos

Definições

Podemos definir constipação no idoso como a presença de um hábito intestinal de menos do que 3 evacuações por semana.

Entretanto, muitas vezes o termo é usado por pacientes e médicos quando as fezes são difíceis de expelir, muito endurecidas, em pouca quantidade, ou quando há sensação de evacuação incompleta.

Constipação é um sintoma e não uma doença, e não é associado ao envelhecimento normal. Idosos saudáveis têm o mesmo hábito intestinal dos jovens. Entretanto, os fatores e doenças que o causam são muito mais comuns nos idosos.

Até 26% dos idosos e 34% das idosas apresentam Constipação. Até 75% dos idosos hospitalizados recebem laxativos.

Abordagem Inicial

De uma forma geral, considera-se Constipação Crônica aquela cujo ritmo evacuatório se mantém razoavelmente constante há pelo menos 2 anos. Os quadros de Constipação que se instalaram há menos de dois anos ou que mudaram suas características neste período devem ser estudados.

Não é nosso objetivo detalhar aqui a investigação da Constipação. Sucintamente, deve-se descartar enfermidades como Obstruções do Trato, Tumores, Megacólon, Contraste Radiológico Impactado (Bário), Afecções da Mastigação e Deglutição, Doenças Neurológicas, Diabetes, Hipotireoidismo, Depressão, Enterocolite Isquêmica, Hipercalcemia.

Todo quadro de Constipação deve ser ABORDADO (o que não significa MEDICADO), por ser queixa frequente e muitas vezes neglicenciada pelos médicos.

Por quê tratar ?

Pacientes que evacuam menos de 3 vezes por semana devem ser tratados, inicialmente com abordagem não farmacológica, seguida de farmacológica se necessário, devido às complicações da Constipação:

  • Impactação Fecal: a maior complicação, com risco de vida.
  • Megacólon: principalmente quando há abuso de laxativos.
  • Carcinoma de Cólon: constipação é fator importante.
  • Síncope e Ataques Isquêmicos Transitórios: podem ser precipitados pela diminuição da irrigação cerebral que ocorre durante a Manobra de Valsalva usada na evacuação difícil.

Diretrizes do Tratamento

O objetivo do tratamento será obter ao menos 3 evacuações não endurecidas por semana, e que sejam expelidas sem esforço.

Em pacientes com hemorróidas, fissuras anais, hérnias inguinais ou incisionais, etc. pode-se indicar o ajuste do hábito intestinal para quase diário.

Há quem defenda a "lavagem" com um enema de pacientes constipados graves, antes do início do programa de tratamento, para se iniciar com o reto/sigmóide vazios, mas não é obrigatório.

No início do tratamento, quando o paciente ainda não evacua na frequência desejada, pode-se indicar uma aplicação de enema se o paciente não evacuar por 7 dias ou mais, devido o risco de impactação fecal.

Em pacientes acamados e debilitados pode-se optar pelo uso de um enema a cada 3 dias, pelo conforto e facilidade de cuidado que traz a evacuação programada, e dada a dificuldade de se obter regularização do hábito intestinal nestes pacientes.

Tratamento Não-Farmacológico

Deve ser oferecido a todos os pacientes com queixa de Constipação, podendo muitas vezes resolver o problema e/ou as queixas dos pacientes, e evitando o uso de laxativos.

a) Esclarecimentos

O paciente deve ser orientado sobre a fisiologia normal das evacuações, principalmente para o fato de que não é necessário evacuar todos os dias, e dos problemas de uso crônico de laxativos.

Deve-se explicar que os laxativos provocam um amplo esvaziamento dos cólons, e portanto após seu uso transcorrem vários dias antes de uma nova evacuação (dando falsa sensação de "prisão de ventre"), o que perpetua o uso crônico.

b) Orientações

Várias medidas são importante para um hábito intestinal sadio:

  • ROTINA EVACUATÓRIA: o paciente deve ser encorajado a sentar-se ao vaso uma vez por dia (ou a cada dois dias), logo após uma grande refeição (para utilizar o potente reflexo gastrocólico), de forma a gerar hábitos e ritmos circadianos. Também deve evacuar tão logo sinta a repleção retal, e não ficar "segurando".
  • FLUIDOS: não havendo alguma contra-indicação, o paciente deve ser estimulado a ingerir 2 a 3 litros de fluidos ao dia.
  • FIBRAS: devem ser adicionadas progressivamente à dieta do paciente (não abruptamente devido à formação de gases). Somente instruir a ingesta de frutas e vegetais muitas vezes é insuficiente. Devem-se considerar suplementos, exceto em pacientes quase sem dentes (que ingerirão as fibras sem mastigar), com megacólon ou imobilizados no leito.
  • EXERCÍCIOS REGULARES: caminhadas quase diárias, ou mover-se no leito (para pacientes imobilizados).

c) Retirar Medicações Constipantes sempre que possível

Podem causar Constipação, entre outros:

  • Sais de Alumínio: Hidróxido de Alumínio e Sucralfate
  • Anticonvulsivantes: Fenitoína, Fenobarbital, Carbamazepina
  • Antidepressivos: Tricíclicos e Venlaflaxina
  • Antiparkinsonianos: Bromocriptina, Amantadina, Levodopa
  • Antipsicóticos: Haloperidol, Risperidona
  • Antiespasmódicos: Oxibutinina, Escopolamina
  • Bloqueadores de Canais de Cálcio: principalmente Verapamil
  • Cálcio: Suplementos
  • Ferro: Suplementos
  • Opióides: Codeína, Morfina

Tratamento Farmacológico

A maioria dos laxativos à venda nas farmácias contém muitos agentes na sua composição, de diferentes classes e mecanismos de ação, dificultando a prescrição. Deve-se considerar o uso de farmácias de manipulação para a obtenção de preparados puros.

Vamos iniciar abordando os princípios ativos e, ao final, estudaremos a composição dos laxativos mais comuns.

a) Laxativos Formadores de Massa

São polissacarídeos hidrofílicos que absorvem água e aumentam o volume das fezes. Necessitam, portanto, de uma boa ingesta de água. Também são metabolizados pelas bactérias intestinais gerando metabólicos osmoticamente ativos.

São a primeira escolha, exceto em pacientes acamados, portadores de Megacólon, Obstrução conhecida ou suspeitada do trato digestivo, ou alterações da deglutição. Entretanto, não funcionam em alguns pacientes.

  1. PLANTAGO: o mais usado, e único disponível puro. É a semente seca do Plantago ovata, também chamada de Psillium.
    Nome comercial: MetamucilÒ (envelopes com 3.4 g)
    Uso: 1 a 3 envelopes ao dia. Tomar com 2-3 copos de água.
    OBS: O PlantaxÒ contém muito mais sena do que plantago, e deve ser considerado Laxativo Estimulante.

b) Laxativos Hiperosmolares

São sais ou açúcares pouco absorvidos pelo TGI, agindo como soluções hiperosmolares. Também estimulam a secreção da colecistocinina, que aumenta o trânsito. Uso oral e retal. São ÓTIMAS escolhas na falha ou impossibilidade do uso dos formadores de massa. Os sais agem rapidamente (poucas horas), mas os açúcares têm ação lenta (com exceção do Manitol, usado em preparo de cólon para procedimentos).

Sais de magnésio ou sulfatos não devem ser usados na Insuficiência Renal.

  1. LACTULOSE: dissacarídeo metabolizado em ácido lático. Também moderadamente formador de massa pois é hidrofílico. Uma das melhores escolhas de laxativo, mas muito caro (vide preços ao final do texto). Nome Comercial: LactulonaÒ e FarlacÒ (lactulose solução 66%)
    Uso: 10 a 60 ml da solução ao dia, uma ou duas tomadas.
  2. GLICERINA: é o Glicerol. Usado na forma de supositórios. Não há preparações orais puras. Nome Comercial: Supositório de GlicerinaÒ (genérico, vários)
    Uso: 1 supositório após uma refeição grande, a cada 1-2 dias.
  3. FOSFATO DE SÓDIO: embora comumente seja usado por via retal no Brasil, seu uso por via oral é muito disseminado nos EUA pois tem gosto palatável, é seguro e barato. Deve ser evitado em pacientes que não podem ingerir muito Sódio. O Enema é muito pouco absorvido. Nome Comercial: Fleet EnemaÒ (solução 22% de Fosfato de Sódio) (fasco 60 mL).
    Importar: Fleet Phospho SodaÒ (Fosfato Monossódico 4.8 g + Fosfato Dissódico 1.8 g / 10 mL)
    Uso: Enema: 1 a 2 frascos via retal por aplicação.
    Solução Oral: 10 a 30 mL ao dia, com muita água.
  4. SAIS DE MAGNÉSIO: óxido, citrato, sulfato e hidróxido. Só o último é encontrado puro. Vale a pena manipular o Sulfato de Magnésio quando não se deseja a alcalinização do estômago. Nome Comercial: Leite de MagnésiaÒ (400 mg/5 mL)
    Manipular: Hidróxido de Magnésio 500 mg (cápsulas)
    Sulfato de Magnésio 500 mg (cápsulas)
    Uso: Hidróxido: 1 (13 mL) a 12 gramas ao dia, dose única.
    Sulfato: 2 a 15 gramas ao dia, dose única.
    OBS: Sulfato 2 gramas = Hidróxido 1 grama = 17 mEq (400 mg) Mg
    (necessidades diárias de Magnésio na dieta 400-800 mg/d)

c) Laxativos Emolientes

Alteram a consistência das fezes, podendo melhorar o trânsito.

De uma forma geral, devem ser evitados nos idosos, devido ao risco de aspiração (e pneumonite lipídica), à interferência com a absorção das vitaminas lipossolúveis, e à saída do material pelo esfíncter anal que por vezes ocorre (com irritação anal).

Há estudos que não encontraram alteração no peso e hidratação das fezes, bem como da frequência das evacuações no uso do óleo mineral. Isto indica que uma maior ingesta de água talvez tenha efeito melhor no amolecimento fecal.

Não funcionam e devem ser evitados nos pacientes com grande quantidade de fezes pastosas na ampola retal. Estão indicados em pacientes acamados com fezes endurecidas, pacientes que não devem fazer esforço evacuatório, ou como adjuvante do tratamento com formadores de massa.

  1. ÓLEO MINERAL: ou parafina líquida. Praticamente não é absorvido.
    Nome Comercial: NujolÒ
    Uso: 1 a 2 colheres de sopa ao dia.

d) Laxativos Estimulantes (ou Irritativos)

Estimulam diretamente o plexo nervoso intramural (plexo mioentérico), aumentando o peristaltismo.

Devem ser muito raramente usados nos idosos, apesar da sua popularidade e eficiência, pois causam dano ao plexo mioentérico com o uso crônico, agravando e perpetuando a constipação. Também causam perdas de eltrólitos e má absorção de cálcio e vitamina D. Em idosos constipados crônicos, estas drogas podem ainda causar impactação fecal dado o súbito acúmulo de fezes na ampola de um paciente cujo reflexo para evacuação é inibido.

A Fenolftaleína é ainda mais perigosa, com risco de dermatites, reações fotossensíveis, e devido à sua ação durar muitos dias.

Na necessidade do seu uso, deve-se preferir o Bisacodil ou, na sua falta, a Cáscara Sagrada (menos irritativa que a sena).

  1. BISACODIL: é um composto difenilmetano, da mesma classe porém mais seguro que a Fenolftaleína. É metabolizado pelas bactérias colônicas em Picossulfato de Sódio, seu metabólito ativo.
    Nome Comercial: DulcolaxÒ (cp 5 mg).
    Uso: 1 ou 2 comprimidos ao dia.
    Nome Comercial: GutalaxÒ (Picossulfato de Sódio 7.5 mg/mL)
    Uso: 15 a 45 gotas via oral ao dia.
  2. CÁSCARA SAGRADA: casca seca de Rhamnus purshianus.
    Não há monodroga no mercado, sendo usada em "remédios para o fígado", ou em associação com vários outros produtos em laxativos de laboratórios independentes (PrisoventrilÒ , PurgoleiteÒ , Ventre LivreÒ , etc.)
    Uso: 150 mg da forma sólida ou 1 a 5 g do extrato fluido ao dia.
  3. SENA ou SENE: pó das folhas de Pulvis sennae.
    Não há monodroga no mercado, mas consta de inúmeros laxantes populares (vide mais abaixo).
    Uso: 0.5 a 2.0 gramas ao dia.
  4. FENOLFTALEÍNA: composto difenilmetano.
    Nome Comercial: Lacto-PurgaÒ (cp 130 mg).
    Uso: Meio a 2 comprimidos ao dia.

Composição de Outros Laxativos Comuns

  1. AGAROLÒ : Fenolftaleína (1 colher de sopa = 190 mg) + Óleo Mineral + Ágar-Ágar (espessante).
  2. AGIOLAXÒ : Plantago 2.71 g + Sena 0.62 g.
  3. HUMECTOLÒ : Bisacodil 5 mg + Docusato 60 mg (Emoliente, em sub-dose) (Dose Habitual 200 mg/d).
  4. TAMARINE GEL LAXATIVOÒ (ou NATURETTIÒ , TAMARILÒ ): 1 colher de Chá contém: Sena 0.4 g (!) + Tamarindus indica 19.5 mg (açúcar hiperosmolar em dose baixíssima) + Cassia fistula 19.5 mg (antraquinônico como a Sena) + Coriandrum sativum 9.0 mg (Coentro, usado como "anti-séptico intestinal") + Alcaçuz 4.0 mg (flavorizante).

MEDICAÇÃOAPRESENTAÇÃO SO HABITUAL
AGAROLFr. 240 mL15 mL / 2 d
AGIOLAX50 x 5 g 1 cp / 2 d
DULCOLAX20 drágeas 1 cp / 2 d
DFLEET PHOSPHO-SODAFr. 45 mL 10 mL / d
GUTALAXFr. 20 mL 15 gotas / d
HIDRÓXIDO DE MAGNÉSIOcáp. 500 mg (50 un.) 1 g / d
HUMECTOL20 drágeas 1 cp / 2 d
LACTO-PURGA25 x 4cp 1 cp / 2 d
LACTULONAFr. 120 mL 10 mL / d
LEITE DE MAGNÉSIAFr. 350 mL 15 mL / d
METAMUCIL10 env. 1 env /d
NUJOLFr. 200 mL 15 mL / d
SULFATO DE MAGNÉSIOcáp. 500 mg (50 un.) 2 g / d
TAMARINEGEL Fr. 250 g 5 g / d
XENICAL84 cp 2 cp / d

Bibliografia

Constipation in the elderly (Schaefer DC) Am Fam Physician, 1998 Sep 15.

Geriatric Secrets (Mary Ann Forciae, Risa Lavizzo-Mourey) 1996.

Principles of Ambulatory Medicine (Barker, Burton & Zieve) 4th edition 1995.

The Pharmacological Basis of Therapeutics (Goodman and Gilman) 9th edition 1996.

Guia de Medicamentos (Zanini & Oga) 97/98.

P.R. Vade-Mécum 1999.


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